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Pela primeira vez, o Brasil emplaca duas cantoras – Ithamara Koorax e Luciana Souza – entre as 10 melhores do mundo na votação dos leitores da DownBeat. Jimmy Smith e Sonny Rollins emplacaram os grandes prêmios.
15/11/2006 - Wilson Garzon, baseado em informações da DownBeat de dezembro.
A mais importante e tradicional votação dos “melhores
do ano” no mundo do jazz – a dos leitores da revista DownBeat,
considerada a "Bíblia do jazz" – chega ao seu 71º ano. Como
sempre acontece, cercada de grande expectativa por parte de
músicos, gravadoras, empresários e jazzófilos de
todos os cantos do mundo. Afinal, seu resultado tem grande impacto no
mercado, ao refletir a popularidade dos artistas em questão.
“Continua sendo o maior termômetro da cena jazzística
mundial”, garante o famoso crítico norte-americano Ira Gitler,
afirmando que a votação dos leitores acaba tendo maior
peso do que a dos próprios críticos.
“O Critics Poll tem um perfil bem mais conservador e esnobe, enquanto o
Readers Poll revela uma posição liberal, menos purista",
comenta o francês Philipe Blanchet “Tanto que Antonio Carlos
Jobim somente entrou para o “Hall of Fame” da DownBeat graças
à votação dos leitores, em 2002. Se dependesse dos
críticos, permaneceria ignorado até hoje. O mesmo
aconteceu em 2005 com Herbie Hancock, adorado pelos leitores mas sempre
acusado de comercial pelos críticos”.
Todos os assinantes puderam votar até o dia 29 de agosto, sendo
preciso preencher as cédulas de votação com
informação completa: nome, endereço, telefone e
até e-mail. Todos os dados foram checados por uma empresa de
auditoria independente que contabiliza os votos, em esquema igual ao do
Grammy. Na votação de 2006, publicada na
edição de dezembro, que chega às bancas no dia 20
de novembro, brilham vários brasileiros de prestígio
internacional.
Vozes consagradas
Pela primeira vez na história da DownBeat, aparecem duas
brasileiras entre as dez melhores cantoras do mundo: a carioca Ithamara Koorax em sétimo lugar (a mesma
posição de John Pizzarelli entre os cantores) e a
paulista Luciana Souza em oitavo. Proeza que até então
nunca tinha acontecido na votação dos leitores nem na
eleição dos críticos. Ithamara, atualmente
radicada em Los Angeles, vem marcando presença na lista desde
2000, quando lançou o premiado disco “Serenade in Blue”,
chegando a alcançar o quarto lugar em 2002. No ano passado,
ficou em oitavo. “É sempre uma alegria e uma honra ver o meu
trabalho reconhecido mundialmente”, resume Ithamara direto de Berna,
onde se apresentou ontem no Mahogany Hall. Depois de temporadas em
vários países da Ásia (Coréia do Sul,
China, Taiwan, Hong Kong e Tailândia) ela atualmente realiza uma
longa turnê européia. Esta semana faz mais quatro
apresentações na Suíça, e os ingressos
estão esgotados há três meses.
Cassandra Wilson foi a vencedora entre as cantoras, seguida por Dianne
Reeves, Diana Krall, Karrin Allyson, Dee Dee Bridgewater,
Patrícia Barber, Ithamara (cuja compilação “The
Best of Ithamara Koorax” já ultrapassou a marca de 120 mil
cópias vendidas) e, em oitavo lugar, Luciana Souza, radicada em
Nova Iorque. Curiosamente, veteranas como Carol Sloane, Anita O’Day,
Chris Connor, Helen Merrill e Abbey Lincoln sumiram da lista. E a
controvertida Jane Monheit, que já veio várias vezes ao
Brasil, não recebeu um voto sequer, assim como Norah Jones, cujo
novo disco “Not too late” teve lançamento adiado para janeiro de
2007, impedindo-a também de ser indicada este ano para concorrer
ao Grammy.
Entre os cantores, o páreo também foi duro, com Kurt
Elling superando Mark Murphy (segundo colocado), o octogenário
Tony Bennett (terceiro) e Andy Bey (quarto). O papa da bossa nova,
João Gilberto, sétimo lugar em 2003, reapareceu este ano
em décimo-primeiro lugar. Ao ser informado da notícia no
Japão, por onde realiza aclamada excursão, limitou-se a
sorrir e a comentar com seu usual minimalismo verbal: “Bom, muito bom”.
Ilustres patrícios
Há trinta e dois anos, devido ao sucesso de Airto Moreira, foi
criada a lista de percussão. “Até então, eu
concorria na categoria batizada de miscellaneous, mas já estava
incomodando gente como Rahsaan Roland Kirk e Toots Thielemans,
então os leitores sugeriram a criação de uma
categoria específica”, revelou certa vez o catarinense, que este
ano aparece em segundo lugar, atrás somente de Poncho Sanchez.
Zakir Hussain chegou em terceiro, com o saudoso Ray Barretto em quarto
e o amazonense Thiago de Mello em quinto. Outro
brasileiro, Marcelo Salazar, debutou na DownBeat em nono lugar, devido
ao sucesso do disco “The Tropical Lounge Project”.
Por conta do elogiado CD “Another Feeling” – gravado
ao lado do virtuose Dexter Payne, oitavo lugar entre
os clarinetistas – Thiago de Mello cravou outro tento
significativo ao ser apontado entre os dez melhores compositores da
atualidade, ao lado de feras como a campeã Maria Schneider
(recente atração do TIM Festival), Carla Bley, Wayne
Shorter (vencedor como sax-soprano), Randy Weston e Wynton Marsalis
(terceiro lugar entre os trompetistas, com Dave Douglas em primeiro e o
brasileiro Claudio Roditi, radicado há 30 anos nos EUA, em
décimo). Também em décimo, entre os trombonistas,
outro patrício consagrado internacionalmente, o mestre Raul de
Souza, hoje vivendo na França.
Vitórias previsíveis
Bastante previsível foi a entrada do lendário organista
Jimmy Smith (falecido em fevereiro de 2005) para o “Hall of Fame”. No
piano e nos teclados, duas barbadas: Keith Jarrett e Joe Zawinul,
respectivamente. Dave Holland, que tocou este ano em Ouro Preto, mais
uma vez roubou a cena com três prêmios, vencendo não
apenas como baixista mas também como melhor grupo e big-band.
Sonny Rollins não deixou por menos, emplacando “Without A Song”
como melhor álbum, além de faturar as categorias de “jazz
artist” e saxofone-tenor. B.B. King, que estará excursionando
pelo Brasil em dezembro (dia 7 ele se apresenta no “Vivo Rio”), venceu
como artista de blues.
“Thelonious Monk Quartet with John Coltrane at Carnegie Hall” foi
apontado melhor "álbum histórico", com a caixa “The
Cellar Door Sessions” de Miles Davis, incluindo
participação de Airto Moreira, ficando em segundo lugar.
Bill Frisell venceu como guitarrista, Jack DeJohnette como baterista,
Gary Burton como vibrafonista, Joey DeFrancesco como organista, e o
gaitista belga Toots Thielemans novamente faturou a categoria
“miscellaneous instruments”.
Nos sopros, além dos já citados, venceram Phil Woods (sax
alto), James Carter (barítono), James Moody (flauta), Steve
Turre (trombone) e Don Byron (clarinete). Sediada em Los Angeles, a
Jazz Station Records (JSR), comandada por Arnaldo DeSouteiro,
colaborador do Tribuna BIS, ficou entre as dez melhores gravadoras de
jazz pelo sexto ano consecutivo, desta vez na quinta
colocação – a vencedora em 2006 foi novamente a Blue
Note. “Ampliamos o cast, investimos também em artistas
estrangeiros como Dexter Payne e Jurgen Friedrich, apostamos em novos
talentos como a dupla Anna Ly & Marcio Correia, e dobramos os
investimentos em turnês internacionais. Tudo isso apesar da
crise, que até agora pouco nos afetou”, afirma o produtor.
“Nosso público-alvo é de alto poder aquisitivo e muito
exigente, pouco interessado em modismos tipo mp3, iPods e Zunes da
vida. No mercado de jazz, os consumidores adoram ler textos de
contracapa, fazem questão de uma apresentação
gráfica luxuosa, querem ter os discos originais. De qualquer
modo, procuro estar sempre me renovando esteticamente, gosto de
surpreender o mercado, ao invés de ficar insistindo numa mesma
tendência. Costumo dizer que tenho instinto de pioneiro e gosto
de segui-lo porque acaba sempre dando certo. O reconhecimento pelos
leitores da DownBeat é uma prova concreta”.